Não mês passado, a Polícia Federal (PF) destacou uma redução significativa das atividades de garimpagem na Terra Indígena Yanomami (TIY), com os alertas de garimpo tendendo a zero pela primeira vez. Por meio de análises das imagens de satélite, constatou-se que cessou o crescimento de novas áreas desmatadas e a cor de alguns rios da região também mudou. No entanto, é importante ressaltar que tais informações não significam que a garimpagem na TIY tenha acabado, e é preciso evitar equívocos quanto à presença do narcotráfico.
As frentes de garimpagem na TIY consistem em milhares de iniciativas individuais, sem um controle central coordenando esses trabalhos. Podemos classificar essas iniciativas de acordo com o volume de investimentos: grande, médio, pequeno e micro. As grandes áreas com devastação são exploradas com retroescavadeiras, e representam os grandes investimentos. Devido ao impacto que causam, essas seriam as primeiras iniciativas a serem combatidas, o que explica o bloqueio de cerca de 138 milhões de reais nas contas dos suspeitos e responsáveis.
Os pequenos e micro investimentos geralmente envolvem células de produção compostas por seis pessoas, operando um par de máquinas ou uma balsa. Um empresário de pequeno porte se apossa de um território e opera uma ou duas dessas células, enquanto um micro investidor arrenda um lote desse posseiro e opera máquinas menos potentes. Dessa forma, essas células podem estar isoladas ou agrupadas em condomínios, onde vários “barrancos” estão vinculados a um posseiro.
Normalmente, um conjunto de condomínios e células soltas se organiza em torno de pistas e portos clandestinos. Esses pontos também abrigam as chamadas “corrutelas”, que incluem uma cantina, um cabaré e um ponto de acesso à internet. São espaços de chegada e saída de cargas e pessoas, além de proporcionar lazer. Essa estrutura de serviços e comércios é de grande relevância na TIY devido à dificuldade de acesso à região, sendo uma das principais fontes de acumulação de excedentes. Tradicionalmente, esses são os alvos das operações realizadas pelo Ibama e outros órgãos de segurança.
Para completar o quadro, é importante destacar a presença de investidores de médio porte, que têm a capacidade de operar com helicópteros e, assim, dispensam a estrutura logística das pistas e portos. Em alguns casos, esses investidores possuem quatro ou cinco células de garimpo dispersas e mantêm uma rotina semanal de logística para transporte de pessoas, máquinas e insumos. Dessa forma, operam de maneira mais discreta e o impacto tende a ser diluído.
É relevante destacar esses investimentos de médio porte, pois, de acordo com a Hutukara Associação Yanomami, ainda há um intenso movimento de helicópteros partindo da Venezuela para operar frentes de garimpo na região de Auaris, por exemplo. Vale ressaltar que a TIY é equivalente ao tamanho de Portugal e o controle efetivo da situação não é simples.