A 2ª edição do Observatório do Ovo, divulgada pela Alianima, revela que fatores como volume de fornecimento, cobertura regional e constância ainda são entraves para a ampliação da oferta; Especialista defende que o problema seja enfrentado com o engajamento de todos os setores envolvidos
Em 2024, o Brasil se manteve em 5º lugar como um dos maiores produtores de ovos do mundo, ultrapassando a marca de 57 bilhões de unidades – crescimento de quase 10% em relação ao ano anterior. Essa expansão acontece em um momento em que consumidores, varejo e organizações da sociedade civil caminham para um modelo mais ético e sustentável de produção, fortalecendo o movimento pelos ovos cage-free (ovos livres de gaiola).
No entanto, esse avanço não tem sido uniforme em todo o país. Embora o varejo nas principais capitais já apresente sinais concretos de transição, a desigualdade regional ainda impõe barreiras importantes à democratização do acesso aos ovos livres de gaiolas. As Regiões Norte e Nordeste do Brasil seguem enfrentando os maiores desafios no abastecimento, conforme aponta a 2ª edição do Observatório do Ovo, relatório divulgado pela Alianima — organização de proteção animal sem fins lucrativos que atua em colaboração com líderes da indústria alimentícia para identificar e enfrentar os principais gargalos da cadeia de produção animal.
A análise, que monitora o grau de engajamento de redes varejistas e atacadistas em relação à transição para a venda exclusiva de ovos cage-free, alerta para os gargalos estruturais e de mercado que limitam o acesso da população dessas regiões a alternativas mais éticas de consumo.
Entre os respondentes, apenas Carrefour e GPA (Grupo Pão de Açúcar) possuem lojas no Nordeste, sendo este último detentor de 129 lojas na Região. “No Sudeste temos grandes fornecedores presentes e facilidade de logística, porém a Região também possui alta demanda dos ovos comuns com considerável diferença de custo em comparação aos ovos livres de gaiola”, destaca o GPA (Grupo Pão de Açúcar) no relatório.
Ainda de acordo com o levantamento inédito, apenas o Grupo Carrefour não consegue garantir a oferta de ovos livres de gaiolas em todas as lojas, justamente por enfrentar dificuldades logísticas no Norte e Nordeste do país. “As Regiões Nordeste e Norte apresentam dificuldade na oferta de fornecedores com disponibilidade de ovos cage-free, volume para fornecimento, cobertura regional e constância”, aponta o Carrefour.
“A baixa oferta de ovos cage-free nestas regiões evidencia a necessidade de um esforço conjunto para promover mudanças positivas em prol do bem-estar animal e da sustentabilidade. Com o engajamento de produtores locais, o apoio do poder público e a articulação entre os diferentes elos da cadeia, é possível fortalecer esse mercado e garantir que o avanço rumo a sistemas mais éticos alcance todo o país”, ressalta Maria Fernanda Martin, zootecnista e gerente de relações corporativas e bem-estar animal da Alianima.
O relatório também aponta a importância do reconhecimento dos selos de certificação voltados ao bem-estar animal pelos supermercadistas. Observa-se a oportunidade de certificação de produtores, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, o que pode contribuir para fortalecer a confiança dos consumidores e fomentar práticas mais sustentáveis.
“A desigualdade regional precisa ser enfrentada com seriedade. A transição para ovos livres de gaiolas não pode ser restrita às regiões Sul e Sudeste. É essencial que o engajamento venha de todas as cadeias e possa fomentar esse mercado de forma estruturada”, afirma a gerente de relações corporativas e bem-estar animal da Alianima. “Nosso papel é apoiar tecnicamente e mostrar que é possível construir um modelo mais ético e viável economicamente.”
Além das barreiras estruturais, o relatório aponta que fatores externos como a alta dos preços do milho e da soja – principais insumos da ração das poedeiras – e os impactos da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) também pressionaram os custos de produção e contribuíram para a alta no preço final dos ovos, tanto os convencionais quanto os livres de gaiolas.
A organização ressalta que tornar o acesso a ovos livres de gaiolas mais equitativo no território nacional é um passo urgente para alinhar a produção brasileira com padrões internacionais de bem-estar animal.
Sobre a Alianima - A Alianima é uma organização de proteção animal sem fins lucrativos, que trabalha em estreita colaboração com líderes da indústria alimentícia para identificar e abordar os principais desafios enfrentados pela cadeia de produção animal. Com uma equipe especializada, fundamenta todas as suas ações e materiais em dados técnico-científicos, com o objetivo de fomentar uma indústria mais atenta e preocupada com o sofrimento animal e um consumidor mais informado sobre a origem de seus alimentos.