Investigação publicada na International Journal of Health Science (ISSN 2764-0159), da Atena Editora, com DOI 10.22533/at.ed.0159672604064, mostra que a capacidade analítica elevada pode ser o principal fator de risco para o fenômeno
"Tive um fim de semana terrível, porque me senti completamente indigno." Foram essas as palavras do cientista Paul Nurse a um amigo, dias depois de receber o Prêmio Nobel. O episódio, citado num estudo publicado na International Journal of Health Science (ISSN 2764-0159), da Atena Editora, ilustra um fenômeno que, segundo pesquisadores do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), afeta de forma especialmente intensa pessoas com QI muito elevado: a síndrome do impostor.
O artigo foi aceito em 4 de junho de 2026 e produzido por pesquisadores do CPAH, com atuação em Portugal e no Brasil.
O dado mais expressivo do estudo vem de uma análise conduzida pelo Genetic Intelligence Project (GIP), plataforma de genômica do CPAH: das 20 pessoas com QI acima de 130 pontos avaliadas, todas relataram ter sentido a síndrome em algum grau. O diagnóstico de QI foi feito por testes padronizados como o WAIS.
Por que pessoas muito inteligentes são mais vulneráveis
A síndrome do impostor é um padrão cognitivo em que o indivíduo persiste em duvidar de suas próprias conquistas, atribuindo o sucesso à sorte, ao acaso ou ao trabalho de outras pessoas, mesmo diante de evidências concretas de desempenho acima da média. A incapacidade de internalizar o próprio mérito, a tendência à autossabotagem e o medo de ser exposto como inadequado são características centrais do quadro.
O estudo aponta que pessoas com QI elevado têm uma vulnerabilidade específica para esse fenômeno, e o mecanismo é paradoxalmente a própria capacidade analítica. Quem tem QI muito alto consegue ver além do óbvio e observar a complexidade de um projeto com mais profundidade. Isso reduz a sensação de responsabilidade pelo próprio sucesso. A pessoa enxerga tantas variáveis que contribuíram para o resultado, a sinergia da equipe, o contexto favorável, a estratégia bem executada, que acaba diluindo o próprio mérito no processo.
O perfeccionismo, traço comum em pessoas com QI elevado, agrava o quadro. Padrões muito altos para os próprios resultados aumentam a autocrítica e dificultam a atribuição de mérito, especialmente quando os resultados não são alcançados na totalidade esperada.
Os cinco sinais e as cinco fases
O estudo usa a Escala Clance do Fenômeno do Impostor para identificar cinco sinais principais associados à síndrome: ansiedade generalizada, baixa autoestima, depressão, esgotamento e falta de autoconfiança. Um estudo de 2022 com 247 estudantes de medicina no nordeste do Brasil já havia associado a síndrome a burnout, depressão e ansiedade, com altos níveis de exaustão emocional e baixa percepção de eficácia profissional.
O artigo descreve também cinco fases psicológicas típicas vividas por quem sofre da síndrome. A primeira é a pressão diante de um prazo. A segunda é a ansiedade, com pesadelos e sintomas psicossomáticos. A terceira é o esforço excessivo, resultado de procrastinação ou entrega no limite. A quarta é o sucesso confirmado por feedback positivo. A quinta é o reforço patológico: a crença recorrente de que o sofrimento é necessário para alcançar resultados, consolidando os medos infundados.
O que o cérebro tem a ver com isso
O estudo mostra que a síndrome tem base neurobiológica. O estresse crônico associado ao quadro envolve a ativação do sistema norepinefrina do tronco cerebral, que estimula o estado de alerta e regula funções do sistema nervoso autônomo. Os mediadores envolvidos incluem norepinefrina e hormônio liberador de corticotropina no sistema nervoso central, além de cortisol na circulação sistêmica. Em mulheres, o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal e os hormônios sexuais associados ajudam a explicar a maior incidência do quadro nesse grupo.
O ponto de tratamento
A literatura científica aponta a autoestima e o perfeccionismo como o ponto central do tratamento. Baixa autoestima explica por que a pessoa experimenta a síndrome ao não atingir seus próprios padrões elevados. Intervenções que fortalecem a autoestima e promovem comportamentos perfeccionistas adaptativos reduzem a gravidade do quadro.
"Num momento em que se fala tanto de saúde mental no trabalho e de esgotamento profissional, sobretudo entre pessoas em posições de alto desempenho, este estudo traz um alerta importante: o perfeccionismo, tão comum em pessoas com QI elevado, não é apenas uma característica de personalidade, é um fator de risco direto para a síndrome do impostor. E a boa notícia é que trabalhar a autoestima e o perfeccionismo é descrito na literatura como o ponto-chave para reduzir a gravidade da síndrome", afirma o autor principal do estudo.
O artigo foi assinado por pesquisadores do CPAH com formação em Neurociências, Educação, Cirurgia da Coluna, Naturopatia e Ciência de Dados.
O CPAH é um centro de pesquisa sem fins lucrativos com pesquisadores em Portugal e no Brasil, que reúne a maior concentração de pessoas superdotadas entre os seus membros.