“Criança cega”. O ditado popular, recitado geração após geração alerta para os riscos da falta de supervisão infantil. Enquanto na escola a equipe pedagógica concentra toda a atenção nos pequenos, durante as férias, os pais e cuidadores precisam se desdobrar entre cumprir as próprias demandas e acompanhar a criança no horário em que, normalmente, ela estaria em sala de aula.
A mudança na rotina e o acúmulo de funções para os adultos responsáveis resultam em um dado preocupante: durante as férias escolares, os acidentes domésticos com crianças aumentam cerca de 25%, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Quedas, traumas, fraturas e ingestão acidental de medicamentos estão entre os principais motivos de atendimento nas emergências.
Segundo a pediatra Liana Medeiros, do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, o aumento desses casos está diretamente relacionado ao tempo de permanência em casa e às características naturais da infância.
"Quando a escola para, a criança troca um ambiente pensado para ela por uma casa pensada para adultos e passa ali a maior parte do dia. A faixa pré-escolar, de 2 a 5 anos, é a que mais se machuca, justamente porque ainda não tem noção dos riscos que a cerca. Some-se a isso à curiosidade natural, a vontade de explorar cada gaveta e canto do lar, somado ao fato de que pai e mãe seguem trabalhando e cuidando da rotina da casa, sem conseguir vigiar cada minuto”, explica a pediatra.
O tipo de acidente muda conforme a idade
Embora qualquer criança esteja sujeita a acidentes, os riscos variam de acordo com a fase do desenvolvimento. No primeiro ano de vida, predominam os casos de sufocamento e quedas, além de queimaduras e aspiração de corpos estranhos. A partir dos dois anos, as quedas passam a liderar as ocorrências, seguidas por asfixias, queimaduras, afogamentos e intoxicações. Já nas crianças acima dos cinco anos, tornam-se mais frequentes as quedas com fraturas e os choques elétricos.
Desses, a médica destaca para as intoxicações, que merecem atenção especial. "As crianças de um a quatro anos são as mais afetadas, porque passam mais tempo dentro de casa e exploram o ambiente levando tudo à boca”, alerta Liana Medeiros.
Entre os ambientes domésticos, a cozinha aparece como o cômodo mais perigoso da casa, concentrando a maioria das queimaduras, cortes e intoxicações. Em seguida vem o banheiro, onde também há risco de quedas e afogamentos.
Pequenas mudanças fazem grande diferença: descubra como
A pediatra destaca outro dado preocupante do SBP: no Brasil, os acidentes são a principal causa de morte de crianças entre 1 e 14 anos, e cerca de 90% dessas ocorrências poderiam ser evitadas com medidas simples de prevenção. Para reduzir os riscos, a pediatra orienta que a segurança da casa seja adaptada à presença das crianças.
Na cozinha, a recomendação é utilizar preferencialmente as bocas traseiras do fogão e manter os cabos das panelas voltados para dentro. Já objetos cortantes devem permanecer em gavetas com travas, enquanto produtos de limpeza precisam ser armazenados em armários altos, trancados e sempre nas embalagens originais. "Nunca transfira produtos de limpeza para garrafas de refrigerante ou outras embalagens de alimentos, porque isso aumenta muito o risco de intoxicação”, diz a especialista.
Contra quedas, a orientação é instalar portões de segurança em escadas, grades ou telas resistentes nas janelas e sacadas, além de retirar tapetes soltos que possam provocar escorregões. Também é importante proteger todas as tomadas e manter fios elétricos organizados. Baldes e bacias devem permanecer sempre vazios e guardados em locais altos. "Pouca água já representa risco de afogamento para os pequenos”, afirma a pediatra.
De fato, mudanças no lar são estratégias importantes para prevenir acidentes com crianças, porém a especialista ressalta que nenhuma medida substitui a supervisão dos adultos. "O cuidado que sustenta todos os outros é a supervisão constante e atenta, conhecer a fase de desenvolvimento do filho e se antecipar aos riscos próprios de cada idade”, alerta Dra. Liana Medeiros.
“Meu filho(a) teve um acidente. E agora? Como devo agir?”
Criança é criança. Mesmo seguindo medidas de prevenção e mantendo a supervisão em dia, ainda assim, acidentes podem ocorrer. O que fazer nessas situações? A especialista explica que, nos casos de intoxicação, a principal orientação é não provocar vômito nem oferecer leite, água ou qualquer outro líquido, especialmente quando a criança ingeriu produtos corrosivos ou derivados de petróleo. "O ideal é tentar identificar qual foi o produto e a quantidade ingerida, levando a embalagem para o serviço de saúde. Se houver contato com a pele ou os olhos, lave imediatamente com água em abundância”, orienta a pediatra.
Quando ocorrer uma queimadura, a área afetada deve ser resfriada com água corrente em temperatura ambiente durante alguns minutos. "Não use gelo, pasta de dente, manteiga, borra de café ou qualquer receita caseira sobre a queimadura e nunca estoure as bolhas”, alerta Liana.
Ainda sobre queimaduras, é necessário procurar atendimento imediato quando a mesma for extensa, profunda, atingir rosto, mãos, genitais ou vias aéreas, ou tiver sido provocada por eletricidade ou produtos químicos.
Nas quedas, embora a maioria seja considerada leve, alguns sinais exigem avaliação médica urgente. "Perda de consciência, mesmo que rápida, vômitos repetidos, sonolência excessiva, choro inconsolável, dificuldade para andar ou mexer um membro e saída de líquido pelo nariz ou ouvido são sinais importantes de alerta”, diz a especialista.
Quanto aos episódios de engasgo, a rapidez no atendimento pode fazer diferença e salvar vidas. "Se a criança não consegue tossir, falar ou chorar, fica arroxeada ou perde a consciência, é preciso acionar o Samu imediatamente e iniciar as manobras de desobstrução. Se ela ainda consegue tossir com força, o melhor é estimular a tosse e nunca colocar o dedo às cegas na boca, pois isso pode empurrar o objeto ainda mais”, finaliza a especialista.