O mês de agosto é marcado pela campanha Agosto Verde-Claro, dedicada à conscientização sobre os linfomas, grupo de cânceres que afeta o sistema linfático, responsável por parte da defesa do organismo contra infecções. Segundo a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 635 mil pessoas são diagnosticadas todos os anos com algum tipo de linfoma (não Hodgkin e Hodgkin), e cerca de 286 mil morrem em decorrência da doença.
Embora muitos casos apresentem boas chances de tratamento e cura quando identificados precocemente, um dos principais desafios continua sendo reconhecer os sinais de alerta e procurar avaliação médica antes que a doença avance.
Entre os sintomas que merecem atenção, o Ministério da Saúde destaca o aumento dos linfonodos, conhecidos como gânglios linfáticos ou, popularmente, "ínguas". Apesar de, na maioria das vezes, essas alterações estarem relacionadas a infecções benignas, alguns casos podem indicar a presença de um linfoma, quando os linfócitos (células de defesa do organismo) crescem de forma descontrolada nos gânglios linfáticos, no baço ou em outras partes do sistema imunológico.
Segundo a hematologista Dahra Teles, do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, é importante observar as características desses gânglios e o tempo de evolução. "Alguns sinais merecem atenção redobrada, como gânglios que aumentam de tamanho e persistem por mais de três a quatro semanas, sem dor, com consistência endurecida e que não diminuem com o tempo", alerta. "Também são sinais de alerta ínguas localizadas acima da clavícula e sintomas associados, como febre sem causa aparente, suores noturnos intensos, perda de peso não intencional e cansaço persistente", complementa.
A especialista ressalta que apenas a avaliação médica é capaz de diferenciar um linfoma de outras condições mais frequentes. "O diagnóstico é feito por meio da história clínica, do exame físico detalhado e de exames laboratoriais, podendo incluir exames de imagem e, quando necessário, a biópsia do linfonodo", explica Dahra Teles.
Toda "íngua" é câncer?
É importante lembrar a função dos gânglios linfáticos. Eles atuam como filtros do organismo, ajudando a combater agentes invasores. Por isso, podem aumentar de tamanho quando a pessoa apresenta infecções, inflamações ou outras condições. Tal característica significa apenas uma coisa: nem toda “íngua” é sinal de câncer.
"A maioria dos gânglios aumentados não é causada por linfoma, mas por infecções ou outras condições benignas. Embora o linfoma não seja a causa mais comum, ele sempre deve ser considerado diante de sinais persistentes ou de alerta", explica a hematologista.
Hodgkin e Não Hodgkin: quais são as diferenças?
Os linfomas são divididos em dois grandes grupos: Linfoma de Hodgkin e Linfoma Não Hodgkin. Apesar de ambos acometerem o sistema linfático, apresentam características biológicas e formas de tratamento diferentes.
"A diferença fundamental está na presença da célula de Reed-Sternberg, característica do Linfoma de Hodgkin. Já o Linfoma Não Hodgkin reúne um grupo muito mais heterogêneo, com mais de 60 subtipos diferentes", explica Dahra Teles.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 12.560 novos casos de linfoma não Hodgkin para cada ano do triênio 2026--2028. Desses, 6.580 casos em homens e 5.980 casos em mulheres. Já de linfoma de Hodgkin, a estimativa para o mesmo período é menor: 3.070 novos casos, sendo 1.740 casos em homens e 1.330 casos em mulheres.
Porém, segundo médica, não é correto afirmar que um tipo seja mais grave do que o outro. "Dentro do grupo Não Hodgkin existem formas indolentes, de crescimento lento, e formas agressivas, de crescimento rápido. Já o Linfoma de Hodgkin, de maneira geral, apresenta altas taxas de cura, principalmente quando diagnosticado nos estágios iniciais", afirma.
O tratamento varia conforme o subtipo e o estágio da doença. Em ambos os grupos, costuma ser realizado com quimioterapia, podendo incluir radioterapia, imunoterapia e, em alguns casos, transplante de medula óssea. Para definir a estratégia terapêutica mais adequada, a biópsia é fundamental.
Doença pode atingir qualquer idade
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os linfomas podem surgir em qualquer fase da vida. Segundo a hematologista, o Linfoma de Hodgkin apresenta dois picos de incidência. "Ele é mais frequente entre adultos jovens, de 15 a 35 anos, e também em pessoas acima dos 55 anos. Já o Linfoma Não Hodgkin tende a aumentar com o envelhecimento, embora possa ocorrer em qualquer faixa etária, dependendo do subtipo", explica.
Alguns fatores aumentam o risco de desenvolver a doença, entre eles imunossupressão, infecções por vírus e bactérias específicas, doenças autoimunes, histórico familiar e exposição prolongada a agrotóxicos e solventes químicos.
Diagnóstico precoce faz toda a diferença
Embora nem todos os fatores de risco possam ser modificados, a especialista destaca que reconhecer os sintomas e procurar atendimento rapidamente faz toda a diferença.
"Em muitos casos, não há medidas capazes de prevenir o linfoma. Por isso, o diagnóstico precoce assume um papel ainda mais importante. Quanto antes a doença é identificada, maiores são as chances de sucesso do tratamento e de cura, especialmente nos casos com maior potencial de resposta terapêutica", alerta Dahra.